Bean-to-bar: entenda o processo

Prática • April 9, 2020
Uma pessoa está misturando chocolate em uma tigela com um batedor.

Do cacau à barra, a produção de chocolate envolve uma sequência de etapas que interfere diretamente em aroma, sabor, textura e aparência.


No bean to bar, esse acompanhamento começa na seleção das amêndoas e segue por processos como torra, quebra, separação das cascas, refino, temperagem e moldagem.


O termo, que significa “do grão à barra”, identifica uma forma de produção na qual o fabricante trabalha a partir das amêndoas de cacau, em vez de utilizar chocolate pronto como matéria-prima principal.


Para padarias, confeitarias e chocolaterias, conhecer esse processo também ajuda a compreender como características do cacau e decisões tomadas durante a produção chegam ao produto final.


O que significa bean to bar?


Bean to bar significa, literalmente, “do grão à barra”.


O termo é utilizado para chocolates produzidos a partir das amêndoas de cacau, com acompanhamento das principais etapas que transformam essa matéria-prima em chocolate.


O fabricante, conhecido como chocolate maker, seleciona o cacau e define parâmetros para processos como torra, refino e temperagem de acordo com as características desejadas para o produto.


O conceito não determina uma receita única.


A formulação pode variar conforme o tipo de chocolate, percentual de cacau, ingredientes utilizados e proposta do fabricante.


Por isso, dois chocolates bean to bar podem apresentar perfis bastante diferentes mesmo quando pertencem à mesma categoria.


Bean to bar e tree to bar são a mesma coisa?


Não. Embora os dois conceitos estejam relacionados à produção de chocolate a partir do cacau, eles abrangem partes diferentes da cadeia.


No bean to bar, o fabricante assume a transformação das amêndoas em chocolate.


No tree to bar, “da árvore à barra”, o processo também envolve a produção do cacau.


Nesse modelo, quem produz o chocolate participa da etapa agrícola ou é o próprio cacauicultor.


Em ambos os casos, fermentação e secagem realizadas na origem têm papel importante na qualidade das amêndoas que seguirão para processamento.


O que diferencia o chocolate bean to bar?


A principal característica está no controle que o fabricante exerce sobre a transformação das amêndoas em chocolate.


Origem do cacau, variedade, fermentação, secagem e condições de armazenamento influenciam as características da matéria-prima.


Depois, seleção, perfil de torra, formulação, refino e outros parâmetros interferem no resultado.


Isso permite trabalhar diferentes perfis sensoriais e desenvolver produtos associados a determinadas origens, lotes ou características do cacau.


Essa definição, porém, não significa que todo bean to bar seja automaticamente superior a qualquer chocolate produzido por outros métodos.


A qualidade depende da matéria-prima, da formulação e do controle de todas as etapas.


Para conhecer também diferenças de composição, tipos e aplicações profissionais, veja o artigo Chocolate para uso profissional: conheça detalhes importantes.


Onde começa a produção do chocolate?


Para o chocolate maker que compra amêndoas já beneficiadas, o trabalho começa na seleção e avaliação da matéria-prima.


A formação das características do cacau, entretanto, começa antes.


Ainda na origem são realizadas etapas como colheita, abertura dos frutos, fermentação e secagem.


Esses processos influenciam diretamente a qualidade das amêndoas recebidas pelo fabricante.


A fermentação participa da formação dos precursores relacionados ao aroma e ao sabor.


Na sequência, a secagem reduz a umidade das amêndoas e permite sua conservação adequada para armazenamento e processamento.


Por isso, conhecer a procedência e as condições do lote é importante para definir as etapas seguintes.


Quais são as etapas do processo bean to bar?


Depois do beneficiamento realizado na origem, a transformação das amêndoas em barras envolve diferentes operações.


A sequência pode apresentar variações entre produtores e formulações, mas algumas etapas são fundamentais.


1. Seleção das amêndoas


Antes da torra, as amêndoas são avaliadas e selecionadas.


O objetivo é identificar a qualidade do lote e retirar materiais estranhos ou unidades inadequadas ao processamento.


Características relacionadas à fermentação, secagem, aroma, aparência e conservação ajudam nessa avaliação.


Essa análise também fornece informações para as decisões tomadas nas etapas seguintes.


2. Torra do cacau


Na torra, as amêndoas são submetidas ao calor sob condições definidas pelo produtor.


Não existe um único perfil aplicável a todos os lotes.


Origem, tamanho das amêndoas, características sensoriais e resultado pretendido influenciam a definição de tempo e temperatura.


Além de participar do desenvolvimento de aromas e sabores, a torra modifica propriedades das amêndoas e prepara o cacau para as operações posteriores.


Controle térmico e uniformidade são importantes nessa fase.


Diferenças excessivas dentro de um mesmo lote podem resultar em amêndoas com comportamentos distintos.


3. Quebra das amêndoas


Após a torra, as amêndoas são quebradas.


O objetivo não é transformá-las imediatamente em uma pasta, mas fragmentá-las para permitir a separação entre a parte utilizada na produção do chocolate e as cascas.


Os fragmentos internos obtidos são conhecidos como nibs de cacau.


4. Separação das cascas


Depois da quebra, ocorre a separação entre nibs e cascas.


Essa etapa pode utilizar equipamentos que aproveitam diferenças de tamanho, peso e comportamento dos materiais para realizar a separação.


Ao final, os nibs seguem para a produção do chocolate.


O que são nibs de cacau?


Nibs são fragmentos da parte interna das amêndoas de cacau após etapas como fermentação, secagem, torra, quebra e retirada das cascas.


Eles contêm os componentes do cacau que serão processados para formar a base do chocolate.


Por isso, quando se fala em produzir chocolate a partir do grão, os nibs constituem uma matéria-prima intermediária fundamental.


5. Refino e formulação


Os nibs seguem então para equipamentos de moagem e refino.


Durante o processamento, a redução das partículas e a liberação da manteiga de cacau presente naturalmente no grão contribuem para transformar o material sólido em uma massa.


É também nessa fase que outros ingredientes previstos na formulação podem ser incorporados.


A composição depende do produto que será fabricado.


Açúcar, leite e manteiga de cacau, por exemplo, podem fazer parte da receita conforme o tipo de chocolate.


O tamanho das partículas e as condições do processamento interferem diretamente na textura percebida na boca.


6. Conchagem


Refino e conchagem são processos relacionados, mas não devem ser tratados como sinônimos.


O refino está associado principalmente à redução do tamanho das partículas.


Já a conchagem envolve movimentação e processamento da massa de chocolate durante determinado período, com efeitos sobre textura, viscosidade, umidade, acidez e perfil aromático.


Dependendo dos equipamentos e do método adotado pelo produtor, algumas dessas operações podem ocorrer de maneira integrada.


7. Temperagem


Depois que a massa atinge as características desejadas, o chocolate precisa ser preparado para a moldagem.


A temperagem controla a cristalização da manteiga de cacau por meio de uma sequência térmica adequada ao produto.


Quando bem executada, contribui para características importantes da barra, como brilho, textura, contração para desmolde e estabilidade física.


Quer aprofundar essa etapa? Veja Chocolate para uso profissional: conheça detalhes importantes.


8. Moldagem e resfriamento


Após a temperagem, o chocolate é colocado nos moldes que darão formato às barras ou a outros produtos.


Em seguida, ocorre o resfriamento controlado para permitir a cristalização e a solidificação.


Depois de desmoldado, o chocolate pode seguir para embalagem e armazenamento em condições compatíveis com suas características.


Assim, o percurso iniciado no cacau chega finalmente à barra.


Como a origem do cacau influencia o chocolate?


As características sensoriais do chocolate não são determinadas somente pela receita.


Variedade genética, local de cultivo, condições ambientais, maturação dos frutos e procedimentos adotados depois da colheita podem influenciar a matéria-prima.


Fermentação e secagem merecem atenção especial.


Durante a fermentação ocorrem transformações importantes para a formação dos precursores associados ao aroma e ao sabor do chocolate.


A secagem dá continuidade a mudanças iniciadas nessa fase e reduz a quantidade de água presente nas amêndoas para permitir sua conservação.


Na fabricação, o perfil de torra também interfere no resultado.


É dessa combinação entre matéria-prima e processamento que podem surgir diferentes características sensoriais entre origens e lotes.


Bean to bar é sinônimo de chocolate sustentável?


Não necessariamente.


Bean to bar descreve uma forma de produção de chocolate e, isoladamente, não funciona como certificação ambiental, social ou trabalhista.


Alguns produtores adotam rastreabilidade, compra direta de cacau, critérios socioambientais ou relações próximas com cacauicultores.


Essas características precisam ser verificadas individualmente e não devem ser atribuídas automaticamente a todo produto identificado como bean to bar.


A origem conhecida do cacau pode facilitar a rastreabilidade e a comunicação sobre fornecedores e lotes, mas sustentabilidade depende dos critérios efetivamente adotados ao longo da cadeia.


Bean to bar é necessariamente mais saudável?


Também não.


Ser bean to bar informa principalmente como o chocolate foi produzido.


Não determina, sozinho, sua composição nutricional.


Percentual de cacau, quantidade de açúcar, leite, manteiga de cacau e demais ingredientes variam conforme a formulação.


Por isso, comparações nutricionais devem considerar a composição de cada produto, e não apenas o método de fabricação.


A legislação brasileira também estabelece critérios para composição e denominação de chocolates.


Veja as informações atualizadas em Novas regras do chocolate mudam foodservice e confeitaria.


Quais equipamentos são usados no bean to bar?


A estrutura necessária depende do volume produzido, do nível de automação e das etapas realizadas pelo próprio fabricante.


Entre os equipamentos que podem fazer parte do processo estão:


  • equipamento para seleção e classificação;
  • forno ou torrador adequado à torra das amêndoas;
  • quebrador de amêndoas;
  • separador de cascas;
  • moinho ou equipamento de moagem;
  • refinador ou mélanger;
  • equipamento para conchagem, conforme o processo adotado;
  • temperadeira;
  • moldes;
  • sistema de resfriamento.


Uma mesma máquina pode desempenhar diferentes funções em determinadas configurações, principalmente em operações menores.


Em outras, cada fase utiliza equipamentos específicos.


Por isso, o dimensionamento deve considerar capacidade por ciclo, quantidade diária de cacau processado, espaço disponível, perfil dos produtos e fluxo de produção.


É possível produzir bean to bar em pequena escala?


Sim. A produção não está restrita a grandes indústrias.


Existem equipamentos com diferentes capacidades para torra, quebra, separação, refino, temperagem e demais operações. Isso permite configurar linhas destinadas a diferentes volumes.


A viabilidade, entretanto, depende de fatores que vão além do tamanho das máquinas.


É necessário considerar disponibilidade e regularidade da matéria-prima, capacidade produtiva, espaço, investimento, mão de obra, controle dos processos, armazenamento, embalagem e demanda pelos produtos.


Antes de dimensionar uma estrutura, o ideal é definir quanto será produzido e quais etapas serão realizadas internamente.


Controle de processo faz diferença no resultado


Bean to bar envolve uma cadeia de transformações na qual cada fase interfere nas seguintes.


Uma matéria-prima com problemas de fermentação ou secagem não terá suas características corrigidas simplesmente por uma torra diferente.


Da mesma forma, uma boa amêndoa pode perder qualidade quando submetida a parâmetros inadequados durante processamento, temperagem ou armazenamento.


Por isso, conhecer o cacau, registrar parâmetros e avaliar os resultados de cada lote ajuda a desenvolver produtos consistentes sem eliminar as características próprias da matéria-prima.


Para padarias, confeitarias e chocolaterias que pretendem trabalhar com chocolate produzido a partir das amêndoas, o primeiro passo é definir o produto desejado, o volume previsto e o fluxo necessário antes de escolher os equipamentos.


Perguntas frequentes sobre bean to bar


O que significa bean to bar?


Bean to bar significa “do grão à barra”.


O termo identifica a produção em que o fabricante transforma amêndoas de cacau em chocolate e acompanha etapas como seleção, torra, quebra, separação das cascas, refino, temperagem e moldagem.


Qual é a diferença entre bean to bar e tree to bar?


No bean to bar, a produção do chocolate começa a partir das amêndoas.


No tree to bar, o responsável pelo chocolate também participa da produção do cacau, abrangendo etapas anteriores da cadeia.


O que são nibs de cacau?


Nibs são fragmentos da parte interna das amêndoas de cacau obtidos depois da quebra e da separação das cascas.


Eles seguem para moagem e refino na fabricação do chocolate.


Quais são as principais etapas do bean to bar?


Depois do beneficiamento do cacau na origem, as principais etapas são seleção das amêndoas, torra, quebra, separação das cascas, moagem, refino, conchagem, temperagem, moldagem e resfriamento.


Refino e conchagem são a mesma coisa?


Não. O refino está relacionado principalmente à redução das partículas.


A conchagem envolve o processamento da massa durante determinado período e interfere em propriedades como textura, viscosidade, umidade, acidez e perfil aromático.


Todo chocolate bean to bar é sustentável?


Não. O termo descreve o processo de produção e não constitui, por si só, uma certificação socioambiental.


Origem rastreável, critérios ambientais e condições de trabalho precisam ser avaliados separadamente.


Quais equipamentos são necessários para produzir bean to bar?


A configuração varia conforme o volume e o processo adotado. Forno ou torrador, quebrador, separador de cascas, moinho, refinador ou mélanger, temperadeira, moldes e sistema de resfriamento estão entre os equipamentos que podem integrar uma linha.


Produzir chocolate a partir das amêndoas exige conhecer a matéria-prima e controlar cada fase da transformação.


Para quem pretende estruturar ou ampliar uma produção profissional, conhecer as funções e capacidades dos equipamentos é essencial para dimensionar o processo de acordo com a demanda.


O cacau e os diferentes tipos de chocolate também apresentam comportamentos distintos nas formulações.


Para conhecer essas diferenças e suas aplicações, veja Bolo de chocolate: qualidade, inovação e apresentação.

Conteúdo revisado pela equipe técnica da Prática, formada por chefs de cozinha, técnicos em panificação, engenheiros e consultores comerciais, com a expertise de mais de 35 anos da empresa no mercado de alimentação.