Como João Carlos Butske se tornou o Melhor Padeiro do Mundo

Prática • 10 de agosto de 2026
João Carlos Butske, Melhor Padeiro do Mundo 2026, durante entrevista ao Blog Prática sobre panificação, inovação e sua trajetória profissional.

Poucos dias após conquistar o título de World Baker of the Year 2026 pela UIBC - International Union of Bakers and Confectioners (Union Internationale de la Boulangerie et de la Pâtisserie), principal reconhecimento internacional da panificação, João Carlos Butske concedeu uma entrevista exclusiva ao Blog Prática.


Nela, compartilha a trajetória que o levou do primeiro emprego em uma padaria, no interior do Espírito Santo, ao mais alto reconhecimento mundial da profissão.


Sua caminhada na panificação começou em 1999, na Padaria Salute, em Nova Venécia (ES), entregando pães de bicicleta e realizando as atividades mais simples da produção.


Mais de duas décadas depois, tornou-se sócio da empresa e conquistou para o Brasil o principal título da panificação mundial.


Conhecimento, inovação, tecnologia, valorização dos ingredientes regionais, formação profissional e os desafios da panificação brasileira estão entre os temas abordados ao longo da conversa.


João também relembra os bastidores da competição em Singapura, fala sobre o papel das entidades representativas no desenvolvimento do setor e compartilha sua visão sobre o futuro da profissão, da automação e da formação de novas gerações de padeiros.


Entre histórias, reflexões e aprendizados, a entrevista revela uma convicção que acompanha toda a trajetória de João Carlos Butske: ninguém chega ao topo sozinho.

 

Para ele, o crescimento da panificação passa pelo conhecimento compartilhado, pela dedicação diária e pela colaboração entre profissionais, empresas e entidades que acreditam no desenvolvimento do setor.


O Espírito Santo possui uma identidade culinária bastante característica. De que forma essa cultura influenciou sua maneira de fazer pão?


O Espírito Santo tem uma identidade e uma gastronomia muito próprias. Isso influenciou muito as minhas receitas, porque eu sempre busquei valorizar a nossa cultura.


Um ponto muito importante é valorizar os produtos que nós temos em casa. Um tempo atrás, o Sebrae despertou esse olhar para identificar o que cada município tem de melhor, quais são os principais ingredientes e produtos de cada região.


Com isso, começamos a desenvolver produtos inspirados em cada município. Por exemplo, o pão de cacau, já que Linhares é o maior produtor de cacau.

Pensamos também no pão de cacau, porque Venda Nova do Imigrante é a cidade produtora desse ingrediente.


Fizemos uma focaccia de abacaxi com calabresa, utilizando o abacaxi de Marataízes. Como Nova Venécia é uma região muito produtora de café e mel, desenvolvemos um pão à base de café.


Eu sempre gostei de brincar com os ingredientes dentro da panificação, valorizando os produtos locais.


Isso trouxe valorização para a panificação capixaba e contribuiu para o crescimento do setor. A minha visão é usar esses ingredientes da nossa terra, valorizando a cultura local junto com a panificação.


Assim, o estado ganha, a cidade ganha e o setor também ganha. A panificação tem tudo para crescer, e está crescendo. Mas, para isso, precisamos valorizar aquilo que é nosso.


Muitas vezes, a gente olha para o mundo, para a Europa, mas existe muita coisa boa ao nosso redor.


Basta começar a olhar e entender que a panificação também é um laboratório, onde podemos criar e inovar com novos produtos.


O que o pão representa para você?


O pão, para mim, é vida. A Palavra vai dizer que Jesus é o pão vivo que desceu do céu (João 6.51).


Mudou a minha história. Tudo o que eu conquistei foi por meio dele. Eu vejo que, desde o Egito até os dias de hoje, ele tem saciado a fome de milhares e milhares de pessoas.


Está presente em milhares de casas, todos os dias, pela manhã. Eu me sinto muito satisfeito em ser padeiro e produzir o pão.


Ele é a minha vida.


Receber o título de World Baker of the Year 2026 foi um feito histórico para a panificação brasileira. Como foi sua trajetória?


A minha trajetória até essa conquista foi de muito trabalho e dedicação.


São 28 anos no setor de panificação. Como eu falei, comecei a minha história entregando pão de bicicleta na Padaria Salute, aqui em Nova Venécia.


Chegar a esse título, muitas vezes, as pessoas vão pensar que foi fácil, mas foram muitas lutas. Até mesmo na Espanha, por ser uma cultura diferente e por serem ingredientes diferentes.


Eu busquei levar um pão com a nossa característica aqui do Espírito Santo. Era um pão de torta capixaba, feito com bacalhau, siri, palmito, bastante azeite e azeitona.


Quando chegamos lá, eu não encontrei esses ingredientes no supermercado que ficava perto da padaria onde estava produzindo. Também não falava a língua deles e não consegui ir para outro supermercado.


Passei por essas dificuldades, mas, graças a Deus, conseguimos superar tudo isso até chegar a essa conquista. Essa trajetória foi construída com muito trabalho, suor, dedicação e muitas noites sem dormir.


Porque a vida de padeiro, muitas vezes, é assim: quando as pessoas estão dormindo, nós estamos trabalhando. Mas eu quero dizer que vale a pena, porque agora a gente está colhendo tudo aquilo que plantou.


Como foi participar da cerimônia em Singapura? Houve algum momento durante o evento ou no contato com profissionais de outros países que marcou você de forma especial?


É, participar da cerimônia foi muito gratificante. Quando tivemos o jantar de gala, na premiação, e ouvimos o nome "João Carlos, do Brasil", o coração bate forte.


A emoção vem, aflora. Foi um momento muito marcante, porque passa um filme na nossa cabeça de tudo o que você já viveu dentro da panificação.


Eu lembro do início, muito sofrido. Como eu falei, comecei entregando pão de bicicleta, lavando muita lata, fazendo aquele serviço da panificação que ninguém queria.


E, de repente, você chega ao topo do mundo, com o reconhecimento de melhor padeiro do mundo. Para a gente, isso é muito gratificante. Durante o evento, um momento me marcou.


Eu tive uma amiga lá em Singapura, uma professora do instituto onde eu estava desenvolvendo os pães.


Fiquei desesperado porque, no primeiro dia, quase não consegui produzir nada. Eu tinha dois dias de produção e não conseguia desenvolver o trabalho porque faltavam ingredientes.


Ela colocou a internet dela à minha disposição, porque a minha não funcionava, e veio com o celular.


Digitou: "Posso te ajudar?". Eu não falava inglês, e não falava japonês, que era a língua dela.


Ela teve muita boa vontade de me auxiliar.


No segundo dia, quando viu que meus pães tinham fermentado demais e que eu teria que fazer outros, falou: "Não, você vai conseguir. Calma, que você vai conseguir."


Então, Deus usou aquela jovem, aquela professora, para me tranquilizar, me dar um norte e mostrar que eu conseguiria.


Ela marcou a minha vida e a minha estadia em Singapura, porque a gente não cresce sozinho.


A gente precisa de pessoas que nos apoiem, nos ajudem e acreditem na gente.

João Butske recebe premiação em Singapura, acompanhado pelo ex-presidente da ABIP, Paulo Meneghelli e outras personalidades. Fotos: João Butske

Como foi sua recepção pelos organizadores da UIBC e pelos padeiros de outros países?


A recepção, com certeza, foi a melhor possível, pela equipe da UIBC.


Desde o presidente, Dominique, até o nosso secretário, todos nos trataram com muito respeito durante a premiação. O nosso secretário, José Maria, sempre nos prestigiando. Então, foi um momento muito especial.


Também em relação às outras equipes. Com certeza, no instituto onde eu estava produzindo os meus pães, estava a equipe da França e da Coreia.


Nós tínhamos dificuldade na comunicação, mas a equipe da França, que estava em três pessoas, me ajudou. Eles me auxiliaram a picar alguns ingredientes, como cebola e tomate.


Ali houve uma conexão, uma ajuda mútua. Um deles, que era francês, falava um pouco de português, então me ajudou em algumas situações e em algumas traduções.


Foi um networking muito legal. Até a própria escola tinha alguns funcionários de Singapura, colaboradores que nos auxiliavam juntamente com a equipe da escola. Foi muito bacana.


O que eu trago de Singapura, além da premiação, é esse contato humano, esse relacionamento.


Mesmo sem falar a língua deles, houve comunicação, houve interação. Isso é muito bacana no mundo da panificação.


Qual foi a importância da ABIP ao longo dessa trajetória e como entidades do setor podem contribuir para o desenvolvimento da panificação brasileira?

 

A ABIP teve, sim, uma grande participação nesta trajetória, desde o título de Melhor Padeiro das Américas, em 2024, até chegar ao reconhecimento como Melhor Padeiro do Mundo, em 2026.


Primeiramente, na pessoa do Paulo Meneghelli, foi a instituição que me indicou para o campeonato. É ela a responsável por indicar um candidato para participar dessa competição.


Para mim, as entidades têm uma grande importância, porque fortalecem o nosso setor e contribuem para o crescimento da panificação. Como diz o nosso antigo presidente, Paulo Meneghelli: "Quando nós nos reunimos, somos mais fortes."


Eu sempre falo que ninguém alcança o sucesso, ninguém chega ao topo sozinho. Nós sempre vamos precisar de pessoas.


Por isso, é muito importante se associar ao sindicato do estado, ao sindicato local, para que ele possa se filiar à entidade nacional, e ela faça parte de uma entidade do nosso continente, da América.

 

Hoje, temos os sindicatos, dos quais fazemos parte. Temos a ABIP, que representa o Brasil.

 

Temos a CIPAN, a Confederação Interamericana da Indústria do Pão, representando a América. E temos a UIBC, a União Internacional dos Padeiros e Confeiteiros.


Dentro dessas entidades, nós somos apenas um padeiro, mas, em uma organização, somos milhares, somos centenas de milhares.


Conquistar um título se torna possível quando existe uma organização como a que temos hoje no Espírito Santo, no Brasil, na América e no mundo.


Sou muito grato à ABIP pela indicação, na pessoa do Paulo Meneghelli, e tenho muito a agradecer. Quero dizer que vamos continuar trabalhando juntos.

Eu acredito muito no cooperativismo e no associativismo.


A gente só cresce quando está unido.


Na sua visão, como a panificação brasileira é vista atualmente no cenário internacional? O que mudou nos últimos anos?


Na minha visão, a panificação brasileira, atualmente, no cenário internacional, está crescendo e se desenvolvendo, tanto em tecnologia quanto em produtos.


Nós temos excelentes tecnologias, principalmente em equipamentos, fornos e na área do frio.


Isso é muito importante para nós. Eu sei que, lá fora, talvez eles tenham técnicas um pouco mais avançadas, mas vejo que nós estamos no caminho certo.

Só para você ter uma ideia, nós temos a maior feira da América Latina.


Temos excelentes profissionais, muito capacitados, com bastante conhecimento, desenvolvendo um trabalho de alto nível.

Também temos excelentes moinhos. Hoje, alguns dos melhores moinhos de trigo estão no Brasil.


Então, eu vejo o cenário da panificação brasileira muito bem desenvolvido e no caminho certo.


Nós estamos crescendo, buscando conhecimento, estudando, e isso tem feito a diferença no setor da panificação, tanto no Brasil quanto no cenário internacional.


Tanto é que hoje nós temos esse título para o Brasil. Isso é fruto de conhecimento e capacitação, não só da mão de obra, mas também das próprias indústrias, que vêm melhorando seus equipamentos e suas tecnologias.


Para nós, é um motivo de muita alegria olhar para o Brasil, porque eu estou no Brasil e tenho que valorizar aquilo que nós fazemos.


Eu vejo que a panificação brasileira está no caminho certo. As indústrias estão se capacitando e melhorando a cada dia.


Esse é o caminho. Eu sei que, muitas vezes, as pessoas falam da Europa e da própria Ásia. Os asiáticos são muito bons em acabamento, mas eu vejo que nós também temos muitas coisas boas, começando pela diversidade de ingredientes, de produtos e pela tecnologia.


O que torna a panificação brasileira única no cenário mundial?


O que torna a panificação brasileira única no cenário mundial, eu vejo que é o nosso jeitinho, a criatividade e a inovação.


A gente é muito rico em produtos. Temos uma diversidade muito grande e somos um país de culturas diferentes.

 

Então, se a gente conseguir trazer essa cultura que existe em cada estado para dentro da panificação, vamos ter uma panificação única. E isso o mundo lá fora não tem. A gente tem esse gingado, essa característica que é brasileira.


Além disso, temos o pão francês, que é um produto que praticamente só o Brasil tem.

 

Então, isso torna a panificação brasileira um grande diferencial competitivo lá fora.

 

Como é possível unir a identidade da panificação brasileira ao conhecimento desenvolvido por outros países para criar produtos cada vez melhores?


Com certeza, o conhecimento é essencial para a gente criar novos produtos.


Quando visitamos Singapura, conhecemos a cultura, os produtos e as tecnologias que eles têm de melhor.


Essa busca por informação e conhecimento nos permite trazer isso para o nosso país e aplicar dentro da nossa capacidade, em busca de crescimento e melhoria.

Então, é de grande importância esse networking entre os países em relação à tecnologia, à inovação e aos produtos.


Eu sempre falo que, muitas vezes, a gente não inventa, a gente copia. Mas copia aquilo que é bom e adapta com o nosso jeitinho brasileiro.


Por isso, é muito importante participar desses encontros, porque é o momento de conhecer as tendências de cada continente e de cada país, trazendo esse conhecimento para a nossa realidade e para os nossos produtos.


Isso tem feito diferença na minha carreira profissional e também nos produtos que eu tenho criado. Eu lembro que fiz um curso de receitas portuguesas, de pães de Portugal. É um pouco diferente do que nós temos aqui, mas conseguimos adaptar aquelas técnicas e melhorar os nossos pães.


Essa busca por conhecimento é muito importante.


O consumidor brasileiro mudou sua forma de consumir pão nos últimos anos? Quais são as principais mudanças que você observa e o que acredita que ele buscará no futuro?


Com certeza, a gente vê uma mudança no cenário brasileiro em relação ao consumo de pão.

 

Quando olhamos os dados da Organização Mundial da Saúde, vemos que o consumo recomendado é de 32 a 36 quilos por pessoa ao ano. Ainda temos muito a crescer nesse aspecto. Com o passar do tempo, percebemos que o consumo de pão tem caído.


Muitas vezes, por uma má interpretação, o pão acabou se tornando um vilão.


Como mudar esse cenário? Eu vejo que a ABIP tem feito um excelente trabalho, difundindo essa ideia de saudabilidade.

 

As padarias precisam buscar produtos voltados para esse conceito, com ingredientes naturais.


Hoje, a fermentação natural não é apenas um modismo, mas uma tendência. Além de tudo isso, eu acredito muito no poder da comunicação e da informação. É preciso transmitir esse conhecimento ao nosso cliente, mostrar que o pão é saudável e pode fazer parte da alimentação.  


Para isso, precisamos informar melhor, porque, muitas vezes, as mídias acabam passando uma imagem de que o pão é prejudicial à saúde, e a gente vê que não é dessa forma.


Então, transmitir conhecimento ao cliente final e produzir produtos com características voltadas à saudabilidade, buscando ser o mais natural possível dentro das padarias, é o caminho para aumentar o consumo de pão pelos brasileiros.

João Butske e o Diretor de Panificação da Prática, Angelo Souza, no estande da empresa na FIPAN 2026.

Como tecnologia e automação vêm transformando a panificação moderna? Em quais situações elas complementam, e não substituem, o trabalho do padeiro?

 

A tecnologia e a automação são necessárias, e nós estamos vivendo esse momento na panificação brasileira. É interessante que, lá em Singapura, já existem muitos robôs nas padarias.

 

Eu vejo que isso também está chegando ao Brasil. Então, a automação é de grande valia dentro da panificação. Por exemplo, eu automatizo o meu forno. Ele liga na hora certa, desliga na hora certa. Eu cadastro uma receita.


A própria Prática tem fornos que gravam receitas. Isso não substitui o padeiro, mas facilita a vida dele. Nós também temos a tecnologia do frio.


Eu peguei a época de trabalhar à noite e sei como era pesado virar noites e semanas trabalhando.


Com a tecnologia e a automação, o profissional ganha qualidade de vida. Muitas vezes, elas também evitam rupturas dentro das padarias e a falta de produtos.


Então, a tecnologia e a automação trazem aumento de vendas, qualidade de vida para o profissional e, em momento nenhum, substituem o padeiro.  


Eu posso ter uma masseira com tecnologia avançada, uma laminadora com memória para gravar receitas e processos de laminação, mas ainda vou precisar do colaborador, vou precisar do padeiro.


Para a sobrevivência da padaria do futuro, o grande pulo do gato é investir em automação, tecnologia, tecnologia do frio e soluções que tragam qualidade de vida ao padeiro. Equipamentos como um forno automatizado, que oferece segurança e precisão, fazem toda a diferença.


Na sua visão, o que falta para despertar o interesse dos jovens pela profissão de padeiro? 


Eu venho de uma realidade diferente. Hoje estou com 46 anos e vivi uma época em que ser padeiro, muitas vezes, era visto de forma pejorativa.


Eu lembro que fui dar aula em uma faculdade, em 2011. Sou formado em Administração de Empresas, pós-graduado na área de Segurança Ambiental e especializado em Engenharia de Produção. Quando cheguei à sala de aula, eu era um padeiro.


Naquela época, essa profissão ainda não era muito bem vista. A imagem era daquele profissional carregando saco de trigo, colocando farinha e água na masseira.
 

Hoje isso mudou muito. O padeiro estudou, se capacitou, participa de concursos internacionais e ganhou visibilidade. Assim como o cozinheiro passou a ser reconhecido como chef, o padeiro também conquistou esse espaço.


A tecnologia e, principalmente, a informação ajudaram muito. A televisão passou a mostrar a gastronomia, a panificação, a confeitaria e os campeonatos, valorizando o nosso segmento.

 

Mas ainda sofremos um pouco por causa do passado. Basta olhar para muitos donos de padaria. Eles queriam que os filhos se formassem em Direito ou em outras profissões, mas não em Panificação.


Hoje estamos colhendo os reflexos dessa visão. Então, o que falta para despertar o interesse dos jovens? Mostrar a profissão. É o que eu tenho procurado fazer. Vou às escolas, às creches e trabalho com as crianças para despertar esse talento desde cedo.
 

Eu falo muito sobre isso com alguns diretores da ABIP. Precisamos começar pelas crianças, porque o jovem de hoje, de 20, 22 ou 26 anos, busca qualidade de vida.


Ele quer trabalhar de segunda a sexta e não quer trabalhar de madrugada.


Por isso, precisamos mostrar que essa é uma profissão que pode proporcionar qualidade de vida e boa remuneração. Assim, conseguiremos diminuir a falta de mão de obra que existe hoje.


Nós sofremos muito no passado por ser uma atividade desvalorizada e pouco reconhecida. Agora estamos colhendo os reflexos dessa visão. 

Eu falo por experiência própria. Tudo o que eu tenho conquistei na panificação.


Hoje posso dizer que tenho duas faculdades, duas pós-graduações, casa e carro, tudo conquistado como padeiro.

Tenho muito orgulho da minha profissão. Muitos colegas começaram comigo e seguiram outros caminhos.


Mas eu acredito que precisamos mostrar até onde um padeiro pode chegar.


Assim como as pessoas enxergam um médico ou um advogado como profissionais bem-sucedidos, também podemos mostrar que um padeiro pode alcançar esse mesmo sucesso. Só depende dele.
 

Outra forma de despertar esse interesse é participar de feiras de profissões. Geralmente, eu conto a minha história, falo do meu trabalho e apresento a profissão. Eu mostro as vantagens, explico o que faz um padeiro e quais são os seus ofícios.


Isso leva informação e conhecimento sobre a panificação, ajudando a valorizar a profissão. Também trabalho bastante em escolas, principalmente em bairros carentes, em busca de novos talentos.


Muitas vezes, quando termino uma atividade com as crianças, elas dizem: "Eu quero ser padeiro", "Eu quero ser confeiteiro". Essa é uma forma de despertar esses novos talentos.


Quais fatores explicam a escassez de profissionais qualificados na panificação atualmente?


A gente está vivendo uma escassez de mão de obra, e isso não acontece só no setor de panificação, mas em todo o cenário brasileiro, na indústria, no comércio e no varejo. No setor de panificação, talvez estejamos sofrendo um pouco mais.


Primeiramente, por causa da jornada de trabalho. A padaria funciona 24 horas, de domingo a domingo. Hoje, a nova geração busca qualidade de vida. Ela não quer trabalhar aos domingos nem nos feriados.


Para amenizar essa dificuldade, precisamos investir em tecnologia, principalmente na tecnologia do frio.

Eu vejo esse como um dos caminhos. Também precisamos investir em automação.


Já falamos um pouco sobre isso. Assim, não será necessário ter toda a equipe trabalhando em um feriado ou em um domingo, nem manter aqueles horários em que o padeiro entra às dez da noite e trabalha a madrugada inteira.


Também precisamos incentivar para que o colaborador tenha uma qualidade de vida melhor dentro do setor de panificação.

Outro ponto que eu vejo é que perdemos muitos profissionais para o comércio.
 

Se você olhar a remuneração, o salário de um colaborador da panificação muitas vezes é muito parecido com o de um atendente de uma loja. Então, a pessoa faz essa comparação: "Vou ganhar a mesma coisa, então prefiro trabalhar na loja."

 

Por isso, o nosso salário também precisa ser um pouco mais atrativo, ter um diferencial, para conseguirmos reter essa mão de obra e superar esse desafio da escassez de profissionais.


Mas eu acredito que é possível amenizar essa situação investindo em tecnologia do frio e em automação.


Isso é essencial para a sobrevivência do setor de panificação no cenário que estamos vivendo hoje.


Muitas pessoas enxergam apenas o lado encantador da panificação, mas desconhecem a disciplina exigidos pela profissão. Como você costuma mostrar essa realidade? 


Com certeza. Quando a gente olha o produto acabado, o pão ou a área da confeitaria, fica encantado. É algo que encanta os olhos, mas exige muita dedicação, principalmente de tempo.


A gente precisa investir muito tempo, estudar e se capacitar.


Tanto que, neste fim de semana, eu já estou indo para São Paulo de novo para estudar. Cheguei de São Paulo há poucos dias e já estou voltando. É necessário investir na carreira profissional, no estudo e no conhecimento.


E como a gente mostra isso para as pessoas?


Através da nossa vida, dos títulos que conquistamos e também do nosso caráter, que fala muito sobre quem nós somos. Principalmente nas palestras, onde temos a oportunidade de influenciar pessoas e de ter uma imagem perante a sociedade brasileira e até mesmo no mundo.


Então, é importante mostrar, por meio do nosso trabalho, que também existe esse lado de sacrifício. De viajar, ficar fora de casa, investir tempo. Muitas vezes, enquanto as pessoas estão se divertindo, nós estamos estudando e trabalhando.


Mas isso é essencial para construir uma carreira profissional sólida.


Se pudesse deixar apenas uma mensagem para quem está começando hoje na panificação, qual seria?


Vale a pena se dedicar ao setor de panificação. É um setor prazeroso e eu estou muito feliz, muito contente por tudo o que estou vivendo.


Quero frisar novamente que ninguém alcança o crescimento, o sucesso ou um título sozinho.


Primeiramente, tenho que agradecer a todas as organizações e empresas brasileiras do setor de panificação que têm contribuído para o crescimento desse segmento.


Nós crescemos, sim, mas precisamos de pessoas que nos ajudem e nos apoiem. Ninguém chega ao topo sozinho. É necessário dedicação, esforço e muito estudo.


Para quem está começando agora na panificação, quero dizer: vale a pena. Busque conhecimento, capacite-se e invista em você. Você é uma empresa.


Então, pense no seu crescimento, porque, automaticamente, quem está ao seu lado também vai crescer.


Se você tiver esse pensamento de buscar conhecimento, inovação, de ser um inovador, de ser um cientista, com certeza vai fazer a diferença onde estiver.

Eu desejo sucesso a todos os padeiros e ajudantes.


Que vocês possam alcançar lugares ainda maiores do que eu alcancei, que possam ir além. Que o meu testemunho e a minha experiência de vida possam servir como um degrau para a caminhada de vocês.


O sucesso é consequência daquilo que nós plantamos no passado. Um forte abraço. Obrigado por esta oportunidade. Quero dizer também que a Prática tem sido uma grande parceira.


É uma empresa inovadora em tecnologia, na tecnologia e automação.


Um forte abraço. Obrigado!


Sobre João Carlos Butske


João Carlos Butske construiu uma trajetória que simboliza a força da panificação brasileira. Em 1999, iniciou sua carreira na Padaria Salute, em Nova Venécia (ES), entregando pães de bicicleta, lavando formas e auxiliando nas atividades da produção. Na época, pretendia seguir a carreira de técnico agrícola, mas a oportunidade na padaria mudou o rumo da sua vida.


Enquanto trabalhava, investiu na própria formação. Formou-se em Administração de Empresas, tornou-se pós-graduado em Gestão em Segurança de Alimentos e em Engenharia de Produção, além de desenvolver pesquisas e projetos voltados à melhoria dos processos produtivos na panificação.


Ao longo da carreira, passou de ajudante de padeiro a gerente de produção, professor universitário e sócio da Padaria Salute.


Reconhecido por unir conhecimento técnico, inovação e valorização dos ingredientes regionais, João tornou-se uma das referências da panificação capixaba.


Além de atuar como consultor, palestrante e instrutor, participa de projetos sociais e educacionais, promovendo oficinas, palestras e ações voltadas à formação de novos profissionais e à valorização da profissão de padeiro.


Sua trajetória reúne importantes conquistas nacionais e internacionais, entre elas os títulos de Melhor Padeiro das Américas e Melhor Padeiro do Mundo.


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Crédito foto João Butske capa: Equipe BUNGE Brasil.