Uso de glitter em alimentos e os riscos à saúde

Prática • 11 de fevereiro de 2026
Cupcake com cobertura cremosa e glitter colorido sobre bandeja metálica, em confeitaria com fundo desfocado e iluminação quente.

A confeitaria mundial vive um momento em que o visual deixou de ser complementar e passou a ocupar posição central na decisão de compra.


Doces altamente coloridos, com superfícies metálicas, efeito perolado e brilho intenso, ganharam protagonismo em vitrines físicas e digitais.


Redes sociais, plataformas de vídeo curto e marketplaces ampliaram essa demanda por produtos visualmente impactantes, elevando o uso de glitters, pós cintilantes e decorativos chamativos, como folhas de ouro.


Esse movimento acompanha uma lógica de consumo baseada na imagem.


Produtos visualmente diferenciados geram curiosidade, ampliam o alcance orgânico e aumentam a percepção de valor.


Para muitos empreendedores, esses decorativos se tornaram um recurso para destacar lançamentos, datas sazonais e linhas premium.


Contudo, há riscos à saúde quando se tratam de produtos não permitidos pela legislação e órgãos fiscalizadores.


Quando o visual entra em conflito com a regulação


O avanço do uso desses materiais chamou a atenção de autoridades sanitárias.


No Brasil, a Anvisa publicou, em outubro de 2025, um esclarecimento técnico afirmando que plásticos não são autorizados como componentes de alimentos, incluindo o chamado polipropileno micronizado, identificado em alguns glitters e pós decorativos utilizados na confeitaria.


Segundo a agência, a simples indicação de “uso decorativo” ou a divulgação como “comestível” não altera o fato de que esses materiais não constam na lista de aditivos alimentares permitidos.


A ausência de autorização impede qualquer avaliação conclusiva sobre ingestão segura.


Medidas sanitárias e impacto direto no mercado


Após o alerta inicial, a Anvisa passou a adotar ações concretas.


Em novembro de 2025, quatro marcas de glitter foram suspensas por conterem material plástico e serem indicadas para uso em alimentos.


As medidas incluíram suspensão da fabricação, comercialização, distribuição, propaganda e uso, além de recolhimento dos produtosjá disponíveis no mercado.
 

Em 2026, novas decisões ampliaram o debate.


Glitters culinários e folhas decorativas foram suspensos após análises apontarem a presença de polímeros plásticos na composição, mesmo quando apresentados como produtos voltados à confeitaria.


O que são microplásticos e por que preocupam


Microplásticos são partículas sólidas de polímeros sintéticos com dimensões reduzidas, geralmente inferiores a 5 milímetros, formadas pela fragmentação de resíduos plásticos maiores ou presentes diretamente em alguns produtos.


Essas partículas já foram identificadas na água, nos alimentos e no ar, o que torna a ingestão e a inalação as principais formas de exposição humana, com impacto direto na segurança dos alimentos.


No contexto da confeitaria, os microplásticos não têm função nutricional e não são metabolizados pelo organismo humano.


O principal ponto de preocupação é que esses materiais não foram desenvolvidos nem testados para ingestão, o que impede a definição de limites seguros de consumo.


Estudos científicos indicam que essas partículas podem atravessar barreiras biológicas e estar presentes em tecidos humanos, sendo associadas a processos inflamatórios e estresse oxidativo.


Além disso, microplásticos podem atuar como vetores de outras substâncias químicas, aderindo a contaminantes presentes no ambiente ou no próprio processo produtivo.


A Organização Mundial da Saúde reconhece que ainda existem incertezas sobre os efeitos de longo prazo, mas destaca a importância de reduzir exposições evitáveis, especialmente por meio dos alimentos, reforçando a adoção de medidas preventivas e regulatórias.


Riscos associados à ingestão


Do ponto de vista técnico e sanitário, os riscos associados incluem:


  • Irritação do trato gastrointestinal devido à presença de partículas sólidas não digeríveis
  • Potencial inflamatório local e sistêmico
  • Possibilidade de transporte de metais pesados ou outros contaminantes
  • Bioacumulação decorrente da ingestão repetida
  • Efeitos de longo prazo ainda não totalmente esclarecidos pela ciência


Essa combinação de fatores explica a postura preventiva adotada pela Anvisa e por outras autoridades internacionais.


Responsabilidade técnica na tomada de decisão


Para empreendedores do ramo da alimentação, o tema exige atenção redobrada.


A adoção de decorativos visualmente chamativos sem verificação adequada pode gerar:


  • Risco à saúde do consumidor
  • Autuações sanitárias
  • Recolhimento de produtos
  • Impacto negativo na imagem da marca
  • Perdas financeiras e operacionais


A conformidade regulatória passa a ser parte essencial da gestão do negócio, especialmente em um cenário de fiscalização mais atenta e consumidores mais informados.


Como avaliar decorativos antes do uso


Alguns critérios técnicos ajudam na tomada de decisão:


  • Conferir se os ingredientes constam em listas oficiais de aditivos alimentares
  • Evitar produtos com descrições genéricas ou ambíguas
  • Solicitar documentação técnica e laudos dos fornecedores
  • Acompanhar comunicados e listas de produtos irregulares da Anvisa


Estética, inovação e segurança dos alimentos


O brilho e o impacto visual seguem relevantes na confeitaria atual.


No entanto, o amadurecimento do setor passa por escolhas mais criteriosas.


O desafio está em alinhar criatividade, diferenciação e conformidade sanitária, garantindo produtos atrativos sem comprometer a segurança dos alimentos.


Esse equilíbrio é fundamental para negócios que buscam crescimento sustentável, credibilidade e longevidade no mercado, tema que merece atenção contínua.


Veja como o cuidado com a qualidade garante não apenas bons produtos, mas também alimentos seguros para o consumidor.