7 práticas de gerenciamento de riscos no setor de alimentação

Prática • November 30, 2020
Um chef está cortando vegetais em uma tábua de corte na cozinha.

Gerenciamento de riscos no setor de alimentação é o processo de identificar situações capazes de causar perdas financeiras, interrupções operacionais, acidentes ou problemas relacionados à segurança dos alimentos e definir medidas para reduzir sua probabilidade e impacto.


Em restaurantes, padarias, supermercados, hotéis, cozinhas profissionais e outras operações de foodservice, os riscos podem estar relacionados a alimentos, equipamentos, estoque, fornecedores, custos, equipes, processos e requisitos sanitários.


Uma forma de organizar esse trabalho é seguir uma sequência contínua: identificar, analisar, avaliar, tratar e monitorar os riscos.


A ISO 31000 adota uma abordagem estruturada para gerenciamento de riscos que contempla identificação, análise, avaliação, tratamento, monitoramento e comunicação.


No setor de alimentação, esse processo precisa considerar também os controles relacionados à segurança dos alimentos.


No Brasil, a RDC nº 216/2004 da Anvisa estabelece requisitos de Boas Práticas para Serviços de Alimentação.


O que é gerenciamento de riscos?


Gerenciamento de riscos é um processo sistemático para reconhecer eventos que podem afetar uma organização, avaliar sua relevância, definir prioridades e estabelecer controles.


Um risco pode ser compreendido a partir de dois fatores centrais:


Probabilidade: possibilidade de determinado evento ocorrer.

Impacto: dimensão das consequências caso ele aconteça.


Essa relação permite distinguir ocorrências de baixa relevância de situações que exigem atenção imediata.


Uma falha pontual de baixo impacto, por exemplo, não recebe necessariamente o mesmo tratamento que uma interrupção de refrigeração capaz de comprometer produtos armazenados.


O objetivo não é pressupor que toda incerteza possa ser eliminada.


O gerenciamento permite decidir quais situações precisam de controles preventivos, quais exigem planos de resposta e quais podem ser acompanhadas dentro de limites definidos pela empresa.


Quais são os principais riscos no setor de alimentação?


Os riscos de uma operação de alimentação não se limitam às finanças.


Eles podem surgir desde o recebimento dos ingredientes até o preparo, armazenamento, distribuição e atendimento ao consumidor.


Classificá-los por área facilita a identificação de causas, consequências, responsáveis e medidas de controle.


Riscos relacionados à segurança dos alimentos


Falhas de higiene, contaminação cruzada, armazenamento inadequado, controle incorreto de temperatura e procedimentos inadequados de manipulação podem comprometer a segurança dos alimentos.


As Boas Práticas para Serviços de Alimentação da Anvisa abrangem diferentes etapas e condições da operação, incluindo instalações, equipamentos, manipuladores, matérias-primas, preparação, armazenamento e transporte do alimento preparado.


Em âmbito internacional, os Princípios Gerais de Higiene dos Alimentos do Codex Alimentarius incluem Boas Práticas de Higiene e o sistema HACCP, baseado na análise de perigos e pontos críticos de controle.


Por isso, os controles relacionados aos alimentos precisam fazer parte do gerenciamento geral da operação, com procedimentos definidos, treinamento, registros e acompanhamento.


Riscos operacionais


Falhas de equipamentos, interrupções de energia, erros de execução, acidentes e problemas de manutenção podem reduzir a capacidade produtiva ou interromper etapas importantes do trabalho.


Um equipamento crítico indisponível durante o pico de atendimento, por exemplo, pode afetar produção, tempo de serviço e capacidade de atender à demanda.


O mapeamento deve considerar quais recursos são indispensáveis, o impacto de uma eventual indisponibilidade e quais alternativas existem para manter a operação.


Riscos de estoque e desperdício


Produtos vencidos, compras incompatíveis com a demanda, armazenamento inadequado, perdas durante o preparo e falhas de inventário afetam diretamente os custos.


O risco também existe no sentido inverso.


Estoque insuficiente pode provocar falta de ingredientes e indisponibilidade de itens do cardápio.


Histórico de vendas, validade, condições de conservação, giro dos produtos e previsão de demanda ajudam a identificar pontos vulneráveis antes que se transformem em perdas.


Riscos de fornecedores e abastecimento


Atrasos, indisponibilidade de ingredientes, problemas de qualidade e dependência excessiva de um único fornecedor podem comprometer a continuidade da produção.


O cadastro e a avaliação periódica dos fornecedores ajudam a conhecer essas vulnerabilidades.


Para insumos críticos, também é importante determinar antecipadamente alternativas de abastecimento quando isso for viável.


Riscos financeiros


Aumento do preço de ingredientes, despesas não previstas, margens reduzidas, falhas de fluxo de caixa e desperdícios podem comprometer os resultados mesmo quando as vendas permanecem estáveis.


O acompanhamento de custos, margens, perdas e despesas permite detectar desvios e dimensionar seu efeito financeiro.


Essa análise também ajuda a definir quais riscos justificam investimento preventivo.


Riscos relacionados às equipes


Rotatividade, treinamento insuficiente, ausência de profissionais-chave e dependência excessiva do conhecimento individual podem provocar variações na execução.


Procedimentos documentados, programas definidos nos equipamentos quando disponíveis e capacitação periódica reduzem a dependência da memória ou da experiência de uma única pessoa.


A padronização também facilita a integração de novos colaboradores e diminui variações entre turnos.


Veja também nosso artigo sobre gestão de pessoas no foodservice.


Riscos legais e ocupacionais


Acidentes de trabalho e descumprimento de requisitos sanitários, trabalhistas ou outros aplicáveis à atividade podem gerar consequências para a empresa e para os colaboradores.


O gerenciamento deve considerar quais normas e obrigações incidem sobre cada estabelecimento e manter responsáveis definidos para seu acompanhamento.


Como fazer o gerenciamento de riscos?


Um processo eficiente transforma riscos dispersos em informações que podem orientar decisões.


A sequência pode ser organizada em identificação, avaliação, priorização, definição de respostas, implementação e monitoramento.


1. Identifique os riscos


O primeiro passo é mapear situações capazes de afetar os objetivos da operação.


A análise pode abranger recebimento de mercadorias, armazenamento, pré-preparo, produção, conservação, distribuição, atendimento, limpeza, equipamentos, fornecedores e equipes.


Para cada risco identificado, registre pelo menos:


  • evento que pode ocorrer;
  • possíveis causas;
  • consequências;
  • área afetada;
  • controles existentes;
  • responsável pelo acompanhamento.


Ocorrências anteriores, desperdícios, reclamações, registros de manutenção, desvios de processo e informações de estoque são fontes úteis para esse levantamento.


2. Avalie probabilidade e impacto


Depois de identificar um risco, é necessário estimar a possibilidade de ocorrência e a gravidade de suas consequências.


Uma empresa pode adotar categorias simples, como:


Probabilidade: baixa, média ou alta.


Impacto: baixo, médio ou alto.


Os critérios precisam ser definidos previamente para evitar classificações baseadas apenas em percepção individual.


O impacto também pode ser analisado sob diferentes dimensões, como custos, interrupção da produção, segurança dos alimentos, pessoas,

conformidade e reputação.


3. Defina as prioridades


Nem todos os riscos exigem o mesmo nível de atenção.


Eventos com alta probabilidade e alto impacto tendem a exigir prioridade.


Situações menos críticas podem ser acompanhadas ou receber controles proporcionais às possíveis consequências.


Essa classificação direciona recursos para os pontos de maior relevância operacional.


4. Determine a resposta para cada risco


Depois da priorização, a empresa define o que será feito.


As respostas podem incluir ações preventivas para diminuir a possibilidade de ocorrência, medidas para limitar consequências ou planos de contingência para situações que interrompam a rotina.


Considere uma câmara refrigerada essencial para o armazenamento.


Entre as medidas possíveis estão manutenção preventiva, monitoramento da temperatura, definição de responsáveis e um procedimento para transferência dos produtos caso ocorra uma falha.


Nesse caso, prevenção e contingência cumprem funções diferentes e complementares.


5. Implemente os controles


Uma medida só produz resultado quando é incorporada à rotina.


Cada ação deve ter responsável, procedimento, prazo e forma de verificação.


Quando necessário, a equipe precisa receber treinamento para compreender tanto a tarefa quanto o motivo do controle.


Registros ajudam a verificar se as medidas previstas estão sendo executadas e se permanecem adequada


6. Monitore indicadores e ocorrências


O perfil de risco muda com a operação.


Novos equipamentos, fornecedores, produtos, processos, volumes de produção ou alterações na legislação podem criar vulnerabilidades diferentes das já mapeadas.


Por isso, o acompanhamento deve observar indicadores relacionados aos pontos críticos do negócio, como desperdício, falhas de equipamentos, perdas de estoque, acidentes, desvios de temperatura, reclamações e indisponibilidade de produtos.


A revisão periódica permite verificar se um risco aumentou, diminuiu ou exige outro tipo de resposta.


O que é uma matriz de riscos?


A matriz de riscos é uma ferramenta utilizada para classificar eventos de acordo com sua probabilidade de ocorrência e impacto.


Ela ajuda a transformar uma lista extensa de problemas potenciais em prioridades de ação.


Em uma classificação simples, um evento pode combinar:


  • baixa probabilidade e baixo impacto;
  • baixa probabilidade e alto impacto;
  • alta probabilidade e baixo impacto;
  • alta probabilidade e alto impacto.


Um problema frequente, mas de consequência limitada, pode exigir melhoria de processo.


Já uma ocorrência rara com potencial de interromper a produção ou comprometer a segurança dos alimentos pode justificar controles específicos mesmo que sua frequência seja baixa.


A matriz não substitui a análise técnica.


Sua função é apoiar a comparação e a priorização com critérios previamente definidos.


Qual a diferença entre risco, perigo e incidente?


Embora estejam relacionados, esses termos não representam a mesma coisa.


  • Risco está relacionado à incerteza e às possíveis consequências de um evento sobre os objetivos da operação.
  • Perigo, no contexto da segurança dos alimentos, refere-se a um agente biológico, químico ou físico presente no alimento, ou a uma condição do alimento, com potencial de causar efeito adverso à saúde. A análise de perigos é parte fundamental da abordagem HACCP adotada pelo Codex Alimentarius.
  • Incidente é uma ocorrência que efetivamente aconteceu e pode ou não ter produzido consequências.


Distinguir esses conceitos ajuda a registrar problemas corretamente e definir controles adequados para cada situação.


Como reduzir riscos no foodservice?


A redução de riscos depende da natureza de cada operação, mas algumas medidas possuem aplicação ampla.


  1. Documente processos críticos. Procedimentos definidos diminuem variações e facilitam treinamento, acompanhamento e correção de desvios.
  2. Controle estoque e validade. Acompanhar giro, armazenamento e vencimentos reduz perdas e ajuda a evitar falta de produtos.
  3. Avalie fornecedores. Critérios de qualidade, regularidade e capacidade de atendimento reduzem vulnerabilidades no abastecimento.
  4. Acompanhe equipamentos críticos. Manutenção preventiva e registros de falhas ajudam a reduzir paradas inesperadas e permitem identificar equipamentos com ocorrências recorrentes.
  5. Treine as equipes. A FAO inclui treinamento e competência entre os elementos das Boas Práticas de Higiene associadas à segurança dos alimentos.
  6. Monitore pontos críticos. Temperaturas, perdas, falhas, acidentes e outros indicadores relevantes devem ser acompanhados conforme as características do estabelecimento.
  7. Prepare respostas para interrupções. Definir antecipadamente o que fazer diante de falhas críticas reduz o tempo necessário para tomar decisões durante uma ocorrência.


Como começar a gestão de riscos?


Uma operação pode iniciar o gerenciamento de riscos sem criar um sistema excessivamente complexo.


O primeiro passo é mapear as etapas do negócio e perguntar, em cada uma delas: o que pode acontecer, por que pode acontecer e qual seria a consequência?


Em seguida:


  1. registre os riscos encontrados;
  2. classifique probabilidade e impacto;
  3. determine quais precisam de prioridade;
  4. identifique os controles existentes;
  5. estabeleça medidas adicionais quando necessárias;
  6. atribua responsáveis;
  7. acompanhe indicadores e ocorrências;
  8. revise o mapeamento periodicamente.


O gerenciamento deixa, assim, de ser uma reação a problemas já ocorridos e passa a integrar as decisões operacionais.


Perguntas frequentes sobre gerenciamento de riscos


Qual é a diferença entre prevenção e contingência?


Prevenção busca reduzir a probabilidade de um evento acontecer.


Contingência define como a empresa responderá caso ele ocorra.


A manutenção preventiva de um equipamento atua antes da falha; um procedimento para manter a produção durante sua indisponibilidade atua sobre as consequências.


Quais riscos devem ser priorizados em um restaurante?


A prioridade depende da combinação entre probabilidade e impacto.


Situações capazes de comprometer pessoas, segurança dos alimentos, conformidade ou continuidade de atividades críticas precisam receber atenção compatível com sua gravidade, mesmo quando não são frequentes.


Com que frequência os riscos devem ser reavaliados?


A periodicidade deve considerar o perfil e a complexidade da operação.


A revisão também é necessária diante de mudanças relevantes, como novos equipamentos, processos, fornecedores, produtos, volumes de produção ou requisitos aplicáveis.


A ISO 31000 inclui monitoramento, revisão e melhoria contínua entre os elementos do gerenciamento de riscos.


O gerenciamento de riscos elimina todos os problemas?


Não. Seu objetivo é identificar incertezas relevantes, avaliar suas possíveis consequências e decidir como tratá-las.


Alguns riscos podem ser reduzidos, outros exigem monitoramento e determinados eventos precisam de planos de resposta caso ocorram


Segurança dos alimentos faz parte do gerenciamento de riscos?


Sim. Em estabelecimentos que manipulam alimentos, perigos e falhas de controle podem gerar consequências sanitárias, operacionais, financeiras e reputacionais.


No Brasil, as Boas Práticas para Serviços de Alimentação são regulamentadas pela RDC nº 216/2004 da Anvisa, enquanto o Codex Alimentarius fornece referências internacionais para higiene dos alimentos e HACCP.


Fontes


  • Anvisa: RDC nº 216/2004 e Cartilha sobre Boas Práticas para Serviços de Alimentação.
  • ISO: ISO 31000:2018, Risk management — Guidelines. A edição de 2018 permanece vigente, embora uma nova edição esteja atualmente em desenvolvimento.
  • Codex Alimentarius, FAO/WHO: General Principles of Food Hygiene, CXC 1-1969, revisão de 2022.


Veja também nosso conteúdo sobre gestão de pessoas no foodservice.

Conteúdo revisado pela equipe técnica da Prática, formada por chefs de cozinha, técnicos em panificação, engenheiros e consultores comerciais, com a expertise de mais de 35 anos da empresa no mercado de alimentação.