Laudo da farinha: qual sua função e o significado de cada termo

Prática • 27 de setembro de 2023
Uma pessoa está segurando uma tigela de massa nas mãos.

A qualidade da farinha de trigo influencia diretamente o desempenho da massa, o volume dos produtos, a estrutura do miolo e a padronização da produção.


Para avaliar essas características, moinhos e indústrias utilizam análises laboratoriais que resultam no chamado laudo da farinha.


Esse documento reúne informações físico-químicas e reológicas que ajudam a identificar a melhor aplicação de cada lote de farinha.


Compreender esses parâmetros permite selecionar a matéria-prima mais adequada para diferentes produtos, como pães, pizzas, panetones, massas fermentadas e produtos de confeitaria.


A seguir, entenda o significado dos principais termos presentes em um laudo da farinha e como eles influenciam os resultados na panificação.


O que é o laudo da farinha?


O laudo da farinha de trigo é um documento técnico que apresenta as características físico-químicas e reológicas de um lote específico de farinha.


Por meio dessas informações, é possível avaliar aspectos como absorção de água, força do glúten, elasticidade, extensibilidade e atividade enzimática.


Esses fatores impactam diretamente o comportamento da massa durante o processamento e a qualidade do produto final.


Ao interpretar um laudo, é importante considerar o tipo de produto que será fabricado.


Uma farinha adequada para pão francês, por exemplo, pode não apresentar o mesmo desempenho na produção de bolos ou biscoitos.


O que significa cada termo do laudo da farinha?


Os laudos costumam apresentar uma série de parâmetros que auxiliam no controle de qualidade da farinha e na definição de sua aplicação.


Umidade


A umidade representa a quantidade de água presente na farinha. No Brasil, o limite máximo permitido é de 15%.


Esse parâmetro influencia a conservação da matéria-prima, o rendimento da produção e a estabilidade durante o armazenamento.


Proteína


A análise de proteína indica o teor total de proteínas presentes na farinha.


O trigo contém quatro proteínas principais:


  • Albumina
  • Globulina
  • Gliadina
  • Glutenina


Embora o teor proteico seja um indicador importante, ele não determina sozinho a qualidade da farinha para panificação.


Duas farinhas podem apresentar o mesmo percentual de proteína e ter comportamentos completamente diferentes durante o processamento.


Por esse motivo, análises reológicas complementares são necessárias para avaliar efetivamente a qualidade do glúten.


Cinzas


O teor de cinzas corresponde ao resíduo mineral obtido após a queima da amostra em altas temperaturas.


Esse parâmetro está relacionado ao grau de extração da farinha e pode influenciar características como cor, sabor e aplicação tecnológica.


W e P/L


Esses parâmetros são obtidos por meio da alveografia e ajudam a determinar a força da farinha e o equilíbrio entre elasticidade e extensibilidade da massa.


São alguns dos indicadores mais utilizados na seleção de farinhas para panificação.


O que é alveografia?


A alveografia é um teste utilizado por moinhos, indústrias de panificação e laboratórios de controle de qualidade para avaliar as características reológicas da farinha de trigo.


A análise simula o comportamento da massa durante a fermentação e permite medir a resistência e a capacidade de expansão da rede de glúten.


Os resultados ajudam a determinar quais produtos podem ser produzidos com melhor desempenho utilizando determinada farinha.


O que é o alveógrafo?


O alveógrafo é o equipamento utilizado para realizar o teste de alveografia.


Durante a análise, uma amostra é transformada em massa e submetida a condições padronizadas de deformação.


O equipamento registra informações relacionadas à resistência, elasticidade e extensibilidade da rede de glúten.


Com base nesses dados, são calculados os principais parâmetros reológicos da farinha.


Parâmetros da alveografia


P (Elasticidade)


O parâmetro P mede a resistência da massa à deformação.


Valores elevados indicam massas mais resistentes e elásticas, capazes de suportar maior pressão durante a fermentação.


L (Extensibilidade)


O parâmetro L representa a capacidade de alongamento da massa antes do rompimento.


Quanto maior o valor, maior a capacidade de expansão e alongamento da rede de glúten.


Massas extensíveis costumam apresentar maior facilidade de modelagem e expansão durante a fermentação.


W (Força da farinha)


O W representa a força da farinha e corresponde à área total do gráfico gerado pelo alveógrafo.


Esse indicador está relacionado à capacidade da farinha de formar uma rede de glúten capaz de reter gases e sustentar o crescimento da massa.


De forma geral:


  • W abaixo de 180: farinhas mais indicadas para biscoitos e produtos de menor estrutura.
  • W entre 180 e 250: aplicações intermediárias.
  • W entre 250 e 320: comum em pães fermentados.
  • W acima de 320: frequentemente utilizado em panetones, pizzas de longa fermentação e produtos que exigem alta resistência.


Os valores podem variar conforme o processo produtivo e a formulação utilizada.


P/L


O índice P/L demonstra a relação entre elasticidade e extensibilidade.


A interpretação geralmente segue os seguintes critérios:


  • P/L acima de 1: farinha mais elástica.
  • P/L próximo de 1: farinha equilibrada.
  • P/L abaixo de 1: farinha mais extensível.


Esse equilíbrio é importante porque cada tipo de produto exige comportamentos específicos da massa.


Uma farinha destinada à produção de pão francês pode demandar características diferentes daquelas utilizadas para pizza ou panetone.


O que é Falling Number?


O Falling Number mede a atividade da enzima alfa-amilase presente na farinha.


Essa enzima atua na degradação do amido e influencia diretamente a fermentação, a coloração da crosta e o volume dos produtos.


De forma simplificada:


  • Valores baixos indicam alta atividade enzimática.
  • Valores altos indicam baixa atividade enzimática.


O equilíbrio é importante para garantir regularidade na produção e qualidade dos produtos assados.


O que é farinografia?


A farinografia é uma análise utilizada para avaliar o comportamento da farinha durante a mistura com água.


O teste permite medir características relacionadas à absorção, desenvolvimento da massa e estabilidade durante o processamento.


Essas informações auxiliam na seleção da farinha e na definição dos parâmetros de produção.


O que é o farinógrafo?


O farinógrafo é o equipamento responsável pela realização da farinografia.


Durante o teste, a farinha é misturada com água em condições controladas, enquanto o equipamento registra a resistência gerada pela massa ao longo do processo.


Os resultados fornecem informações importantes sobre a capacidade de absorção de água e o desenvolvimento da estrutura da massa.


Parâmetros da farinografia


Absorção


Representa a quantidade de água necessária para que a massa atinja a consistência padrão determinada pelo teste.


Farinhas com maior absorção costumam permitir maior rendimento produtivo e podem influenciar características como maciez e shelf life.


Tempo de Desenvolvimento (TD)


Indica o tempo necessário para que a massa atinja seu ponto ideal de desenvolvimento.


Esse parâmetro está relacionado à qualidade das proteínas e às características da farinha.


Estabilidade (E)


A estabilidade mede a capacidade da massa de manter sua consistência durante o processo de mistura.


Valores elevados indicam maior tolerância ao processamento e maior resistência às variações durante a produção.


Esse comportamento costuma ser desejável em processos industriais e em operações que exigem elevada padronização.


Como escolher a farinha adequada para cada produto?


A escolha da farinha deve considerar os parâmetros apresentados no laudo e as características desejadas para o produto final.


De forma geral:


  • Pães fermentados costumam demandar farinhas com boa força e equilíbrio entre elasticidade e extensibilidade.
  • Pizzas de longa fermentação normalmente utilizam farinhas com força elevada.
  • Panetones exigem farinhas com alta capacidade de retenção de gases e desenvolvimento da estrutura.
  • Bolos e biscoitos geralmente utilizam farinhas menos fortes.


Por isso, a interpretação correta do laudo é uma ferramenta importante para aumentar a padronização, reduzir variações e obter resultados mais previsíveis na produção.


Como o laudo da farinha ajuda no controle de qualidade?


O laudo permite verificar se a farinha recebida atende às especificações necessárias para a produção.


Além de auxiliar na seleção da matéria-prima, ele contribui para:


  • Padronização dos processos.
  • Controle da qualidade dos produtos.
  • Redução de variações entre lotes.
  • Melhor aproveitamento dos ingredientes.
  • Maior previsibilidade dos resultados.


Para panificadoras, confeitarias, supermercados e indústrias, essas informações são fundamentais para manter consistência e eficiência operacional.


Perguntas frequentes sobre o laudo da farinha


O que é uma farinha forte?


É uma farinha que apresenta maior capacidade de formar e sustentar a rede de glúten, normalmente associada a valores elevados de W.


O teor de proteína determina sozinho a qualidade da farinha?


Não. O teor de proteína é importante, mas a qualidade do glúten deve ser avaliada por análises reológicas como alveografia e farinografia.


O que significa um P/L próximo de 1?


Significa que existe equilíbrio entre elasticidade e extensibilidade, característica desejável para diversas aplicações de panificação.


Qual a diferença entre alveografia e farinografia?


A alveografia avalia principalmente a resistência e a extensibilidade da rede de glúten. A farinografia analisa o comportamento da massa durante a mistura com água.


O Falling Number influencia a fermentação?


Sim. A atividade da enzima alfa-amilase interfere na disponibilidade de açúcares para a fermentação e pode impactar volume, cor e desempenho da massa.


Entenda melhor a qualidade da farinha


O laudo da farinha é uma ferramenta importante para compreender o comportamento da matéria-prima durante a produção e selecionar a farinha mais adequada para cada aplicação.


Ao interpretar parâmetros como W, P/L, Falling Number, absorção e estabilidade, torna-se possível tomar decisões mais assertivas, aumentar a padronização dos processos e obter resultados consistentes em diferentes produtos de panificação.


A elaboração e revisão técnica deste material contou com a contribuição da especialista em farinhas Kátia Cavaline.


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