Mitos da fermentação natural: evite estes 7 na sua produção

Prática • April 11, 2022
Um pedaço de pão está sobre uma tábua de corte de madeira.

A fermentação natural desperta interesse de panificadores que buscam desenvolver pães com características próprias de aroma, sabor, textura, miolo e casca. No entanto, trabalhar com levain em uma produção comercial exige controle das diferentes variáveis envolvidas.


O fermento natural, também conhecido como levain ou massa mãe, é cultivado a partir de farinha e água e envolve a atividade de leveduras e bactérias.


Sua manutenção, assim como o comportamento da massa, sofre influência de fatores como alimentação, farinha, hidratação, tempo e temperatura.


Na panificação profissional, essas variáveis precisam ser conciliadas com volume de produção, regularidade entre lotes, disponibilidade de mão de obra e capacidade dos equipamentos.


É nesse contexto que alguns conceitos difundidos sobre fermentação natural podem levar a decisões inadequadas.


A seguir, a equipe técnica da Prática esclarece sete deles.


1. “A fermentação natural exige técnicas muito complexas”


Não necessariamente.


Criar e manter um fermento natural exige conhecimento, organização e acompanhamento, mas o processo pode ser incorporado à rotina da padaria.


A cultura precisa receber farinha e água em proporções e intervalos adequados para permanecer ativa.


Temperatura, frequência de alimentação e condições de armazenamento também interferem em seu comportamento.


Quando mantido sob refrigeração, o metabolismo dos micro-organismos é reduzido. Isso permite administrar os intervalos entre as alimentações de acordo com o cronograma de produção.


O aspecto do fermento também fornece informações importantes.


Aroma, formação de bolhas, crescimento, consistência e acidez ajudam o panificador a acompanhar sua atividade.


Para quem está começando, reunimos orientações sobre criação, alimentação, armazenamento e identificação de problemas no conteúdo como fazer fermento natural para pão e evitar erros comuns.


Em uma padaria, o desafio não é apenas manter o levain ativo.


É integrá-lo ao fluxo produtivo para que a massa chegue às etapas de divisão, modelagem, fermentação final e forneio nas condições desejadas.


2. “Pão de fermentação natural só dá certo com farinha importada”


Não. A origem da farinha, por si só, não determina o sucesso de um pão de fermentação natural.


Farinhas nacionais podem apresentar desempenho adequado.


O importante é conhecer as características da matéria-prima utilizada e observar seu comportamento na receita.


Absorção de água, desenvolvimento da massa, resistência, extensibilidade e desempenho durante a fermentação precisam ser considerados pelo panificador.


Duas farinhas podem exigir ajustes diferentes de hidratação, mistura e tempo para alcançar o produto pretendido.


Na produção comercial, o custo também deve entrar nessa avaliação.


Uma matéria-prima importada pode acrescentar despesas de aquisição, transporte e armazenamento sem necessariamente proporcionar uma vantagem compatível com o perfil do pão ou com o público do estabelecimento.


Por isso, em vez de escolher uma farinha somente pela procedência, faça testes com a formulação, registre os resultados e avalie rendimento, comportamento durante o processamento e qualidade após o forneio.


3. “Você pode fazer toda a produção à mão”


Em pequenas quantidades, é possível misturar, dobrar, dividir e modelar massas manualmente.


Quando o volume aumenta, porém, depender exclusivamente do trabalho manual dificulta a manutenção de ritmo e regularidade entre lotes.


Na etapa de mistura, por exemplo, a massa precisa desenvolver estrutura suficiente para suportar as fases seguintes.


Temperatura, hidratação, tempo e intensidade do amassamento interferem nesse resultado.


As amassadeiras espirais da Prática permitem trabalhar diferentes volumes de massa e auxiliam na incorporação dos ingredientes e no desenvolvimento da rede de glúten.


O formato da espiral e sua relação com o tacho também favorecem a absorção de água e reduzem o aquecimento excessivo durante o amassamento.


Isso é especialmente relevante em massas de alta hidratação e processos longos, nos quais uma alteração térmica antecipada pode modificar o ritmo da fermentação.


A automação também reduz a dependência de esforço físico repetitivo e permite que a equipe concentre atenção no controle do processo.


4. “Quanto mais dobras e descansos, melhor o pão”


Não. Dobras e descansos devem ser utilizados de acordo com a farinha, hidratação, desenvolvimento da massa, temperatura e resultado pretendido.


As dobras podem contribuir para a organização e o desenvolvimento da estrutura da massa. Isso não significa que aumentar indefinidamente sua quantidade produzirá um pão melhor.


Em ambientes quentes, outro fator merece atenção: a massa pode atingir rapidamente temperaturas que aceleram a atividade fermentativa.


O próprio amassamento gera calor por atrito, e manipulações posteriores também precisam ser consideradas no controle térmico.


Por isso, a temperatura da água deve ser ajustada às condições da farinha, do ambiente, do equipamento e à temperatura final desejada para a massa.


Em determinadas situações, pode ser necessário utilizar água resfriada ou gelo.


O excesso de farinha utilizado durante manipulações também merece cuidado.


Além de alterar a formulação originalmente calculada, ela absorve água e pode modificar textura, hidratação e resultado final.


Em vez de estabelecer um número fixo de dobras e descansos, acompanhe o desenvolvimento da massa e defina as intervenções de acordo com a receita e as condições reais da produção.


5. “Quanto mais longa a fermentação natural, melhor”


Não. Uma fermentação maior não significa automaticamente um pão melhor.


Tempo é apenas uma das variáveis. Temperatura, quantidade e atividade do fermento, farinha, hidratação e estágio da massa também determinam o comportamento da fermentação.


Quando o processo ultrapassa o ponto adequado para determinada formulação, a massa pode perder estrutura e capacidade de reter os gases produzidos durante a fermentação.


O resultado pode aparecer no volume, no miolo, na modelagem e no forneio.


Há ainda uma questão operacional.


Manter grandes quantidades de massa em processo durante períodos muito extensos exige espaço, planejamento e capacidade de armazenamento compatíveis.


Em uma padaria, o tempo escolhido precisa fazer sentido tanto para as características do pão quanto para o fluxo de produção.


Uma possibilidade é organizar parte da produção no dia anterior e utilizar o frio para retardar a atividade fermentativa.


Com isso, o panificador consegue administrar o momento em que as massas avançarão para as etapas seguintes.


As câmaras de fermentação permitem trabalhar com temperatura e umidade controladas, reduzindo a interferência das mudanças climáticas sobre o processo.


Modelos como a CFCK20 da Prática operam em modos quente e frio e permitem programar o retardo seguido do aquecimento.


Essa programação é utilizada na função conhecida como Padeiro Noturno, na qual o equipamento administra automaticamente etapas programadas para que os produtos atinjam a condição definida no horário planejado.


Se quiser entender esse recurso em detalhes, veja como funciona o Padeiro Noturno nas câmaras de fermentação.


6. “Alvéolos grandes e pestanas indicam um bom pão”


Nem sempre. Alvéolos grandes e pestanas pronunciadas são características desejadas em determinados produtos, mas não funcionam como uma medida universal de qualidade.


Os alvéolos correspondem aos espaços formados no miolo durante o desenvolvimento da massa e a retenção dos gases da fermentação.


Seu tamanho e distribuição dependem de diversos fatores, entre eles formulação, farinha, hidratação, desenvolvimento da rede de glúten, fermentação, manipulação e modelagem.


A pestana também depende do produto e do processo.


Corte, ponto de fermentação, expansão no forno, temperatura e vaporização interferem em sua formação.


Uma ciabatta, por exemplo, pode buscar uma estrutura interna bastante aberta.


Outros pães podem apresentar miolo mais regular e ainda assim alcançar exatamente as características definidas para aquela receita.


O mesmo raciocínio vale para o levain. Culturas diferentes podem apresentar comportamentos distintos, e aroma, sabor, acidez, coloração, textura da casca e estrutura do miolo também fazem parte da avaliação.


Antes de procurar o maior alvéolo possível, defina qual pão você pretende produzir e quais características são adequadas a ele.


7. “Pão de fermentação natural só fica bom em forno a lenha ou de lastro”


Não. Pães de fermentação natural podem ser produzidos em diferentes tipos de fornos destinados à panificação.


O resultado depende da combinação entre produto, receita e características do equipamento.


Temperatura, transferência de calor, circulação de ar, vaporização, carga e tempo de forneio precisam ser ajustados ao tipo de pão.


Os fornos turbo utilizam convecção forçada e permitem trabalhar várias assadeiras na mesma câmara.


Dependendo da receita e do resultado desejado, parâmetros como temperatura, ventilação, vapor e carga precisam ser ajustados para o produto.


Já os fornos de lastro trabalham de outra forma.


Nos modelos elétricos com controles independentes de teto e piso, o panificador pode ajustar a incidência de calor de acordo com as características que deseja desenvolver no pão.


A escolha, portanto, não deve partir da ideia de que existe apenas um forno capaz de assar fermentação natural.


Volume diário, dimensões dos produtos, características de casca e base, necessidade de vapor, espaço disponível e fluxo da padaria devem ser avaliados antes da compra.


A Prática possui fornos de panificação com diferentes tecnologias e capacidades para atender essas necessidades.


O controle vale mais do que regras fixas


Um dos principais erros ao trabalhar com fermentação natural é transformar recomendações em regras universais.


A mesma farinha não se comporta da mesma forma em todas as formulações.


Uma temperatura adequada para determinado processo pode não atender outro. Dobras, hidratação e duração da fermentação também precisam ser avaliadas em conjunto.


Na produção profissional, o objetivo é compreender essas relações, definir parâmetros e acompanhar os resultados de cada lote.


Registros de tempo, temperatura, hidratação, comportamento da massa e resultado após o forneio ajudam a identificar variações e realizar ajustes.


A fermentação natural oferece muitas possibilidades para o desenvolvimento de produtos, mas exige controle desde a preparação do fermento até a saída do pão do forno.


Para aprofundar esses pontos, veja também as 11 dúvidas sobre fermentação natural esclarecidas pela equipe Prática.


Perguntas frequentes sobre fermentação natural


Qual é a diferença entre levain e fermento natural?


Na panificação, levain e fermento natural são denominações utilizadas para culturas fermentativas mantidas a partir de farinha e água.


Também é possível encontrar termos como massa mãe, dependendo da origem e do método utilizado.


Qual é o tempo ideal da fermentação natural?


Não existe um tempo único para todas as receitas.


O período depende da atividade do fermento, temperatura, farinha, hidratação, quantidade utilizada e características desejadas para o pão.


O ponto da massa deve ser avaliado junto com o tempo.


Fermentação natural precisa ser feita na geladeira?


Não obrigatoriamente.


O frio é um recurso utilizado para retardar a atividade fermentativa e organizar processos de maior duração.


A temperatura deve ser definida de acordo com a formulação, o estágio da massa e o cronograma de produção.


Qual farinha usar na fermentação natural?


A farinha deve ser escolhida de acordo com o produto e com seu desempenho na formulação.


Em vez de considerar apenas origem ou marca, avalie absorção de água, desenvolvimento da massa, comportamento durante a fermentação e resultado depois do forneio.


Quer entender melhor o que acontece com a massa durante cada etapa? Veja também como funciona a fermentação do pão e como controlar suas principais variáveis.

Conteúdo revisado pela equipe técnica da Prática, formada por chefs de cozinha, técnicos em panificação, engenheiros e consultores comerciais, com a expertise de mais de 35 anos da empresa no mercado de alimentação.